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Uma surpresa a cada embarque

Cada embarque é uma experiência nova e incrível, nenhum deles é igual.

Meu nome é  Gabriel Sampaio, sou Biólogo Marinho e atualmente sou o Instrutor ATF responsável pela Base de Rio Grande do Projeto Albatroz.

Minha última experiência embarcada foi em dezembro de 2017, a bordo do Maria, um barco de pesca de espinhel pelágico atuante na região sul do Brasil. Este é por si só um fator de grande influência no nosso trabalho a bordo. O Maria tem 24 metros, foi construído nos anos 50, na Noruega, e é feito exclusivamente de madeira. É um barco que nos remete aos tempos antigos de navegação, com sua bússola centenária e seu timão entalhado.

Uma das atividades do Projeto Albatroz é testar medidas que reduzam a captura incidental de Albatrozes e Petréis que interagem com a pescaria de espinhel pelágico de superfície. Esse tipo de pesca é voltado à captura de atuns, espadartes e grandes tubarões pelágicos.

Nesta ocasião, eu estava testando o HookPod, um dispositivo que abriga o anzol iscado até uma profundidade segura para as aves, ao atingir a pressão certa o dispositivo abre-se e libera o material para capturar apenas as espécies alvo.

Estávamos a 300 milhas (540 km) da costa, a uma profundidade de aproximadamente 4000 metros, com o objetivo de capturar indivíduos de Espadarte, ou Meca, o principal peixe de bico desta região. Nunca havia ido tão longe em nenhum de meus 16 embarques. Estava atento e ansioso para a possibilidade de encontrar espécies incomuns ou raras de aves oceânicas.

Depois de 20 horas de montagem de experimento e organização de material, iniciou-se a operação de pesca e comecei a fazer os censos de aves marinhas. Haviam grandes grupos de Pardelas-de-óculos, alguns indivíduos jovens de Albatroz-de-nariz-amarelo e um juvenil de Albatroz Real seguindo o barco durante o recolhimento do material de pesca.

As dezenas de aves voavam elegantemente no entorno do Maria, utilizando o vento e a dinâmica do mar para planar sem gastar energia, esperando os descartes da pesca para matar sua fome. O monitoramento dessas interações entre as aves e a pescaria é de suma importância para uma gestão eficiente dos recursos e para a conservação dos albatrozes e petréis.

Poucas experiências são tão tocantes quanto a avistagem de um Albatroz do gênero Diomedea, ou Albatrozes gigantes, animais que podem chegar aos 3,5 metros de envergadura, tamanho de uma ponta da asa até a outra. Mesmo em suas fases juvenis é notavelmente maior do que as outras aves oceânicas.

Subi até a proa da embarcação para acompanhar o albatroz adolescente que planava ao nosso lado. Nos meus fones tocava “Riding with the King”, tocada por Eric Calpton e B.B. King, fiquei acompanhando seu voo suave e despreocupado, a precisão de seus movimentos e a naturalidade com que se movia para cima e para baixo aproveitando a força dos ventos. Afinal de contas, eu realmente estava andando com o rei, ou ao menos com um príncipe, das aves marinhas.

De repente, ao acabar a música, me distraí do jovem albatroz e avistei o que parecia ser uma pardela enorme. Para minha surpresa, era um Piau-preto, ou Albatroz-negro, um dos poucos albatrozes de plumagem escura, ameaçada de extinção e bastante difícil de ser avistada em águas brasileiras. Consegui tirar algumas fotografias e fazer seu registro ao longo dos 15 dias que ficamos pescando na região.

Ironicamente, a música que começou e me fez deixar de prestar atenção no pequeno grande príncipe era “Paint it Black” dos Rolling Stones, e eu pensei, parece que até mesmo os albatrozes se pintam de preto de vez em quando!

Como disse, cada embarque é uma experiência única. O que se vê no mar, só se vê no mar... Somos privilegiados em poder conviver com essas criaturas incríveis e partilhar com os pescadores conhecimentos sobre sua biologia e conservação.


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