Tese de doutorado na UFSC traz novas descobertas sobre o impacto da poluição na saúde dos albatrozes
Estudo defendido recentemente por Patricia Pereira Serafini, analista ambiental do ICMBio e membro atuante no ACAP, focou nos Procellariiformes do Hemisfério Sul
Para além de ameaças já conhecidas à sobrevivência de albatrozes e petréis, como a interação com a pesca e a crise climática, os efeitos da exposição à poluição também estão prejudicando populações dessas incríveis aves oceânicas, que ocupam o topo da cadeia alimentar e são estudadas pelo Projeto Albatroz, patrocinado pela Petrobras. Por voarem grandes distâncias em busca de alimento e ilhas remotas para se reproduzirem, essas aves ficam expostas a uma série de substâncias contaminantes, vírus e bactérias, podendo ser consideradas sentinelas da saúde dos oceanos.
A médica veterinária Patricia Serafini, analista ambiental do ICMBio, pesquisadora visitante da Universidade de Oxford e co-coordenadora do Grupo de Trabalho de Populações e Estado de Conservação do Acordo para a Conservação de Albatrozes e Petréis (ACAP), analisou em sua recente tese de doutorado para a Universidade Federal de Santa Catarina os efeitos e os impactos da poluição na biologia dessas aves e sua conservação.
Intitulada “A Saúde dos Albatrozes e Petréis no Brasil: Avaliação de Respostas Bioquímicas e Moleculares a Impactos Ambientais", a tese investigou os efeitos subletais da poluição marinha em aves Procellariiformes do Hemisfério Sul, a fim de fornecer informações que possam subsidiar decisões de manejo e conservação das espécies. Para isso, foram utilizados biomarcadores, ferramentas promissoras para detectar efeitos subletais da contaminação ambiental, mas ainda pouco empregados para análises em albatrozes e petréis.
A pesquisa usou uma abordagem ecotoxicológica para investigar as respostas bioquímicas e moleculares dos albatrozes e petréis à exposição a contaminantes ambientais. A investigação foi estruturada em cinco capítulos complementares. Inicialmente, foi feita uma revisão sistemática da literatura científica sobre biomarcadores de contaminação aquática em aves marinhas, compilando e analisando 275 artigos publicados globalmente. Foram avaliados tipos de biomarcadores, matrizes biológicas utilizadas, classes de contaminantes investigadas e lacunas geográficas e taxonômicas existentes, bem como todas as associações encontradas entre biomarcadores e contaminantes.
Em seguida, foi realizado um estudo ecotoxicológico com a pardela-sombria (Puffinus puffinus) como espécie modelo. Através da necropsia de 155 indivíduos encalhados ao longo da costa brasileira, foram avaliados conteúdos gastrointestinais para detecção de detritos plásticos, e coletadas amostras hepáticas para análises de contaminantes e biomarcadores bioquímicos e moleculares. Além disso, a pesquisadora estudou essas mesmas aves em relação aos biomarcadores em suas colônias, nas classes etárias durante o período reprodutivo.
Por fim, foram gerados transcriptomas hepáticos (resultado da transcrição total de DNA do fígado) de referência para duas espécies de albatrozes que ocorrem no Brasil e estão ameaçadas de extinção: o albatroz-viageiro (Diomedea exulans) e o albatroz-de-nariz-amarelo (Thalassarche chlororhynchos).
Principais achados e conclusões
A tese mostra que a poluição marinha continua afetando albatrozes e petréis no Brasil, mesmo quando os sinais não são visíveis a olho nu. A pesquisa encontrou evidências de que esses animais entram em contato com plásticos, com 29% das pardelas-sombrias analisadas apresentando algum tipo de plástico em seu trato digestivo, e também com substâncias químicas persistentes presentes no ambiente, como PCBs, HCB, Mirex e Drins, que podem alterar o funcionamento do organismo das aves.
Outro ponto importante observado na pesquisa é que a idade das aves faz diferença na forma como elas respondem à poluição. Indivíduos filhotes, juvenis e adultos não apresentam os mesmos padrões biológicos, o que significa que os biomarcadores hepáticos usados para medir impacto ambiental precisam considerar essa variação para que a leitura dos resultados seja correta. Isso ajuda a evitar interpretações equivocadas sobre o estado de saúde das populações de albatrozes e petréis.
Contribuições para a conservação
Entre os diversos achados e conclusões da tese, chama atenção seu potencial de impactar positivamente os trabalhos de pesquisa e monitoramento de populações de albatrozes do Hemisfério Sul. Ao gerar transcriptomas hepáticos de referência para duas espécies de albatrozes ameaçadas, a pesquisa cria uma base inédita para identificar genes e vias metabólicas que respondem a contaminantes, por exemplo os efeitos de metais no sistema imune.
Esses dados podem apoiar futuros programas de biomonitoramento, melhorar a identificação de impactos subletais da poluição e ajudar a orientar medidas de manejo em áreas frequentadas por albatrozes e petréis. Com sua tese, Patricia Serafini deseja que mais pesquisadores passem a ampliar seus estudos para as espécies austrais para fortalecer as políticas públicas de conservação. “Das 22 espécies de albatrozes que conhecemos, pelo menos 17 se reproduzem e se alimentam em regiões austrais. Mesmo assim, ainda persistem lacunas importantes de conhecimento justamente nessa porção do planeta, tão rica em biodiversidade e tão ameaçada por questões como poluição, crise climática e interações com a pesca".
Tatiana Neves, coordenadora geral do Projeto Albatroz e vice-presidente do Comitê Assessor do ACAP, explica que as conclusões apresentadas pela tese da Patricia Serafini podem ser valiosas para as estratégias de conservação globais. "No âmbito de grandes acordos internacionais de conservação, como o próprio ACAP, e outros de incidência local, com o Plano Nacional para a Conservação de Albatrozes e Petréis (Planacap), novas informações sobre contaminação, manejo e estado de saúde dessas grandes aves oceânicas nos ajuda a atualizar dados científicos e fortalecer as redes globais que protegem os albatrozes".
Como parte da defesa da tese, dois artigos científicos já foram publicados: “Revisão sistemática de biomarcadores de contaminação aquática em aves marinhas e seu potencial para o monitoramento da saúde dos oceanos” e “Biomarcadores bioquímicos e moleculares e sua associação com substâncias químicas antropogênicas em pardelas-sombrias (Puffinus puffinus) durante o inverno".
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