Políticas de conservação de aves migratórias registram avanço na COP15 CMS, em Campo Grande
Com participação do Projeto Albatroz e delegações de mais de 130 países, a conferência assegurou a inclusão de mais de 40 espécies na lista de animais protegidos pela CMS
"Hoje, se os albatrozes perguntassem para mim o que vejo nesta sala, eu diria, sem hesitar: esperança". Foram essas as palavras escolhidas pela fundadora e coordenadora geral do Projeto Albatroz Tatiana Neves, para dar início à sua fala durante a abertura da 15ª Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15 CMS), realizada em março na cidade de Campo Grande (MS). O Projeto Albatroz, que tem patrocínio da Petrobras desde 2006, participou das discussões sobre políticas de conservação para esse grupo de aves oceânicas ameaçadas de extinção, que culminaram na inclusão de mais de 40 espécies na lista de animais protegidos pela CMS. Entre elas, 24 espécies de petréis e grazinas, como a pardela-de-trindade (Pterodroma arminjoniana), que se reproduz em território brasileiro.
A escolha do Pantanal sul-matogrossense como anfitrião não foi à toa. O bioma é rota de deslocamento e alimentação de 190 espécies de aves migratórias que viajam desde o Hemisfério Norte até áreas remotas como a Patagônia e ilhas subantárticas. O evento, que acontece a cada três anos, reuniu mais de duas mil pessoas, entre representantes de governo, cientistas, povos indígenas, comunidades locais, lideranças ambientais e integrantes da sociedade civil de diversas partes do mundo, com foco em tomar decisões que protejam as mais de 1,1 mil espécies migratórias de peixes, mamíferos, aves e répteis reconhecidas pela CMS.
O evento deste ano trouxe como mensagem a frase “Conectando a natureza para sustentar a vida”, destacando a urgência de integrar esforços globais para garantir a conservação das espécies migratórias e a manutenção dos seus ecossistemas. Para Tatiana Neves, que também é vice-presidente do Comitê Assessor do Acordo para a Conservação de Albatrozes e Petréis (ACAP), isso significou a oportunidade de levar informações biológicas e científicas atualizadas sobre as mais de 15 espécies de albatrozes e petréis que ocorrem no Brasil. Em suas longas viagens em busca de alimento, temperaturas amenas e ilhas para reprodução, essas aves enfrentam ameaças como a captura incidental pela pesca industrial, contaminação por poluentes, ingestão de resíduos plásticos e perda de habitat pela crise climática.
Com isso em mente, o Projeto Albatroz participou de uma série de apresentações, painéis e discussões públicas que pudessem levar a urgência da conservação desse grupo de aves oceânicas para as pautas de políticas públicas internacionais de conservação.
Ações integradas de conservação
Um dos painéis que fomentaram o debate sobre as ações que impactam diretamente na conservação dos albatrozes e petréis foi organizado pela Rede Biomar, formada pelos projetos Albatroz, Baleia Jubarte, Coral Vivo, Golfinho Rotador e Meros do Brasil, sob mediação da Petrobras. Com o tema "Rede Biomar: Ações Integradas para a Conservação das Espécies Migratórias e Biodiversidade Marinha no Brasil", ele reuniu Tatiana Neves, Eduardo Camargo (Projeto Baleia Jubarte), José Martins (Projeto Golfinho Rotador) e Paulo Horta (Projeto Coral Vivo) e Amanda Borges (Petrobras), para discutir a importância da coletividade na conservação de espécies migratórias e os passos que estão sendo dados por um futuro mais sustentável.
Tatiana Neves explicou que as ações conjuntas entre os projetos da Rede Biomar têm uma potência muito maior na conservação das espécies do que ações individuais. “Isso ocorre em diversas áreas, como trocas de conhecimento em monitoramento de pesca e interação com pescadores, além de expertise em turismo sustentável”, explica. “Existem sinergias concretas, como a parceria entre Baleia Jubarte e Projeto Albatroz em barcos de avistamento de fauna marinha, permitindo que turistas, pesquisadores e observadores estudem a distribuição das espécies e as aproximem do imaginário coletivo da sociedade, gerando apoio à conservação”.
Ela ressalta que uma das conquistas no âmbito da rede é a sensibilização em vários níveis sociais, desde a primeira infância em escolas e comunidades até níveis avançados nas universidades, e grupos de pesquisa. Todos os projetos atuam nas escolas e formam coletivos jovens, como o Coletivo Jovem Albatroz, trocando experiências e reunindo jovens de diferentes regiões do Brasil — de Fernando de Noronha ao sul da Bahia, incluindo universitários e comunidades indígenas. “Desse diálogo surgem ideias, ações e sonhos relevantes para o presente e o futuro", concluiu.
Outro resultado importante das ações integradas da Rede Biomar é a participação ativa dos projetos nos Planos de Ação Nacionais (PANs) referentes às espécies que protegem, atuando junto ao ICMBio para a criação de estratégias de conservação a nível de país, que depois servem de subsídios para órgãos e acordos internacionais, como o ACAP.
Aves anfitriãs e sua conservação
Outra roda de conversa sobre o tema foi realizada entre conselheiros do Conselho Regional de Biologia 1ª Região (CRBio-01) Tatiana Neves, Neiva Guedes, Eliza Mense e João Batista para um encontro com o tema "Aves Anfitriãs e as espécies símbolo na conservação do habitat para o recebimento das espécies migratórias". Mediado pela jornalista Cláudia Gaigher, foi debatida a importância das pesquisas de longo prazo como base para ações efetivas de conservação.
Foram apresentados resultados de mais de três décadas de estudos sobre aves migratórias no Pantanal, evidenciando a evolução do conhecimento científico na área e sua aplicação prática e foram destacadas as iniciativas do Projeto Albatroz na conservação e produção de conhecimento sobre aves oceânicas e os avanços alcançados em mais de 37 anos de pesquisas voltadas à preservação pelo Instituto Arara Azul.
Espécies com proteção ampliada
Ao final da COP15 CMS, mais de 40 espécies, subespécies e populações foram incluídas ou reclassificadas nos Apêndices I e II, listas que reúnem, respectivamente, espécies migratórias ameaçadas de extinção e espécies migratórias que demandam cooperação internacional para sua conservação. Das 40, 16 ocorrem no Brasil, o que reforça o papel do país na promoção de discussões internacionais de conservação.
Entre aves limícolas, mamíferos e répteis, foram aprovadas 24 espécies de petréis ou grazinas para inclusão nos Apêndices I e II, dos gêneros Pterodroma e Pseudobulweria. Entre elas, ganham destaque quatro espécies de petréis, como a pardela-de-trindade (Pterodroma arminjoniana), que tem a Ilha da Trindade, no Espírito Santo, como um de seus locais de reprodução.
Na opinião de Tatiana Neves, o balanço da COP15 CMS foi positivo, pois permitiu a ampliação da lista de espécies de aves oceânicas protegidas e a troca de informações relevantes sobre conservação com instituições de todo o mundo. “A COP15 significou esperança para trabalhar em prol da biodiversidade marinha, ao lado de instituições e profissionais profundamente comprometidos com mudanças", afirmou. “Isso reforça o papel do nosso país como articulador importante para políticas públicas de conservação, sejam elas nacionais ou internacionais”.
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