Instituto Albatroz participa de resgate de cachalote-pigmeu (Kogia breviceps) na praia do Forte, em Cabo Frio (RJ)
Ação foi liderada pelo GEMM-Lagos e animal conduzido para o Centro de Reabilitação e Despetrolização do Instituto Albatroz. Debilitado, veio a óbito dois dias depois.
No dia 22/07, o Instituto Albatroz, que executa o Projeto de Monitoramento de Praias (PMP-BC/ES), em parte Região dos Lagos, iniciativa financiada pela Petrobras, foi acionado para apoiar o resgate de uma fêmea adulta de cachalote-pigmeu (Kogia breviceps), na praia do Forte, em Cabo Frio (RJ). A operação, que conduziu o animal para o Centro de Reabilitação e Despetrolização da instituição, foi liderada pela equipe do Grupo de Estudos de Mamíferos Marinhos da Região dos Lagos (GEMM-Lagos) e contou com a parceria da Prefeitura de Cabo Frio – por meio da Secretaria de Segurança e Ordem Pública, da Defesa Civil, do Grupamento da Guarda Marítima e Ambiental (GMA) e da Guarda Civil Municipal –, e do Corpo de Bombeiros.
Depois de toda a manhã recebendo cuidados veterinários na faixa de areia, o exemplar de cachalote-pigmeu foi transportado pela praia em um caminhão aberto e, em seguida, foi transferido para um caminhão frigorífico que fez o transporte até o Centro de Reabilitação e Despetrolização (CRD) do Instituto Albatroz. Lá, foi medicado e estabilizado em um tanque de 100.000 litros de água salgada e seguiu em tratamento conduzido pela equipe de médicos veterinários do GEMM-Lagos e dos Institutos Albatroz, ORCA e Baleia Jubarte.
Durante dois dias, o animal manteve o padrão respiratório estabilizado, além de responsivo aos estímulos externos, sendo monitorado 24 horas por uma equipe multidisciplinar. Nesse período, foram colhidas amostras de sangue para análises hematológicas e bioquímicas, bem como amostras destinadas à análise microbiológica, com o objetivo de avaliar seu estado clínico e auxiliar na investigação da causa do encalhe. Os exames iniciais indicaram um quadro importante de desidratação e alterações em parâmetros relacionados à função hepática. Embora clinicamente relevantes, esses achados não foram suficientes para determinar a causa do encalhe. Apesar dos esforços e da busca por recuperação, no dia 24, porém, o cachalote-pigmeu veio à óbito.
“O espécime, de aproximadamente três metros de comprimento e cerca de 350 quilos, apresentava quadro de hipoglicemia, além de mordidas recentes de tubarão-charuto (Isistius brasiliensis) e lesões no ventre decorrentes de atrito com o sedimento (areia) da praia”, relatou a médica veterinária do Instituto Albatroz, Daphne Goldberg. Logo após a confirmação da morte, foi feita a necropsia e foram colhidas amostras para exames complementares destinados à investigação da causa do óbito. A análise microscópica dos tecidos obtidos durante a necropsia será essencial para caracterizar as alterações nos órgãos e contribuir para a determinação da causa do encalhe. Estes dados também poderão ampliar o conhecimento sobre encalhes dessa espécie e reforçam a importância da ciência para a conservação da fauna marinha.
Encalhes sucessivos
De acordo com o biólogo do GEMM-Lagos, Bruno Comelli, houve dois eventos anteriores de encalhe desse animal no dia 21/07. Na primeira tentativa de devolvê-lo ao mar, ele voltou a encalhar na praia. Neste segundo encalhe, a avaliação veterinária detectou o quadro de hipoglicemia, que foi corrigido. Em seguida, foi realizada uma nova tentativa de soltura; porém, o cachalote-pigmeu voltou a encalhar na praia, quando então decidiu-se estabilizar o espécime na praia e encaminhá-lo para reabilitação no CRD mais próximo, em Araruama.
O trabalho de resgate e reabilitação é um esforço conjunto que envolve a Rede de Encalhes de Mamíferos Aquáticos do Sudeste (REMASE), da qual GEMM-Lagos, Instituto ORCA, Instituto Baleia Jubarte fazem parte. Em caso de avistamento de animais marinhos encalhados, vivos ou mortos, nas praias da Região dos Lagos, acione o PMP-BC/ES, através do telefone 0800 991 4800.
O Instituto Albatroz executa o Projeto de Monitoramento de Praias das Bacias de Campos e Espírito Santo, monitorando 25 praias nas cidades de Cabo Frio, Arraial do Cabo e Búzios. A realização do PMP-BC/ES é uma exigência do licenciamento ambiental federal, conduzido pelo Ibama, para o atendimento das atividades da Petrobras de produção e escoamento de petróleo e gás.
Cachalote-pigmeu (Kogia breviceps)
O cachalote-pigmeu é um cetáceo de hábitos predominantemente oceânicos, associado a águas profundas e geralmente encontrado distante da costa. Por essa razão, a espécie é pouco observada em ambiente costeiro, e seus encalhes são considerados relativamente incomuns.Os adultos medem até 4m de comprimento e têm coloração cinza-azulada escura no dorso, com ventre mais claro. Apresentam corpo robusto, cabeça volumosa e quadrangular e mandíbula inferior estreita e recuada.
Uma de suas características mais marcantes é a presença de uma faixa clara curva atrás de cada olho, conhecida como “falsa brânquia”. A nadadeira dorsal é pequena e falcada, enquanto as nadadeiras peitorais são curtas e largas. Os dentes funcionais estão localizados principalmente na mandíbula inferior. Trata-se de um cetáceo tímido e discreto, geralmente observado sozinho ou em pequenos grupos. Quando ameaçado, pode liberar no ambiente uma substância intestinal escura, possivelmente utilizada para confundir predadores.
A espécie possui distribuição ampla em águas tropicais, subtropicais e temperadas, sendo comumente encontrados em áreas profundas, próximas à borda da plataforma continental e ao talude. Alimenta-se principalmente de lulas, peixes e crustáceos de águas profundas, capturados durante mergulhos.
Devido aos hábitos oceânicos e à baixa detectabilidade, grande parte das informações sobre K. breviceps são provenientes da análise de animais encalhados. Um estudo realizado por pesquisadores do GEMM-Lagos e publicado em 2016 analisou os encalhes de cachalotes-anão e pigmeu entre 1965 e 2014 na costa brasileira. Foram registrados 42 encalhes de K. breviceps ao longo de toda a costa, com predominância nas regiões Sul e Sudeste. As análises de conteúdo estomacal mostraram que há preferência por cefalópodes oceânicos (lulas e polvos), ainda que peixes e crustáceos também possam constituir presas ocasionais.
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